Saneamento básico é negligenciado pelos políticos em ano eleitoral. Apesar de 43% da população sem coleta de esgoto e 16% sem água potável.
Enquanto o Brasil acumula mais de 43% da população sem coleta de esgoto e 16% sem acesso à água potável, o saneamento básico continua a ser tratado como uma pauta técnica demais para os palanques eleitorais. Mesmo com um cenário de quebra de recordes de investimentos, queda de indicadores de saúde e metas ambiciosas até 2033, o tema é repetidamente empurrado para o segundo plano pelas campanhas de 2026.
A crítica é direta: em vez de priorizar o cotidiano e a saúde da população, políticos preferem anúncios que brilham rápido e sumam com o mandato.
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Saneamento básico a contradição do Brasil: avanços técnicos e omissões políticas
Os dados do Instituto Trata Brasil (ITB) são claros: quase metade do esgoto gerado no país não é tratado, e mais de 5 mil toneladas de dejetos chegam diariamente a rios e corpos d’água. Ao mesmo tempo em que o novo Marco Legal do Saneamento, sancionado em 2020, ampliou a previsibilidade jurídica e atraiu dezenas de bilhões em investimentos, a sensação nas ruas é de estagnação.
O cenário é de contradição:
- Marco Legal trouxe obrigações de metas (99% de acesso à água potável e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033).
- Estudos calculam que são necessários de R$ 420 bilhões a mais de R$ 900 bilhões até 2033 para atingir essas metas.
- Mas o político de plantão prefere inaugurar praça, asfalto ou “ponte que não chega” do que discutir redes de esgoto ocultas no subsolo.
São obras que não aparecem em selfies, então não servem de cartão‑postal eleitoral.
Por que o saneamento básico não interessa nos debates
O especialista em marketing político Deividi Lira aponta sem meias‑palavras o motivo: saneamento básico tem baixo apelo emocional e visibilidade. Enquanto saúde, educação e segurança rendem manchetes rápidas e debates acalorados, o tema é visto como complexo, técnico e de resultados lentos demais para o curto prazo das campanhas.
Os erros recorrentes são evidentes:
- Em municípios e Estados, o saneamento é tratado como “pautinha dentro de infraestrutura” ou “qualidade de vida”, sem planos concretos.
- Grandes obras de esgoto e drenagem são planejadas em um mandato, licitadas em outro e concluídas em um terceiro, sem que o eleitor consiga associar o benefício ao gestor responsável.
- Em áreas historicamente desassistidas, o problema é “naturalizado”: o eleitor já se acostumou a viver sem água potável e sem rede de esgoto.
Resultado: o tema vira piada em comícios, mas jamais vira compromisso político claro.
Déficit, desigualdade e uso político do saneamento básico
O saneamento não é apenas uma questão de tubo e estação de tratamento. É um nó que articula saúde pública, meio ambiente, desigualdade social e até valorização imobiliária. Em 2024, o Painel Saneamento Brasil registrou 336 mil internações e quase 5 mil mortes por doenças relacionadas ao saneamento inadequado, com destaque para o surto de dengue.

Mesmo com queda gradual dos números, o cenário permanece crítico e bastante desigual:

- O Ranking do Saneamento 2026 mostra 70 pontos percentuais de diferença no acesso à coleta de esgoto entre os 20 melhores e os 20 piores municípios.
- Em Praia Grande (SP), o investimento per capita é de R$ 572, enquanto em Rio Branco (AC) chega a apenas R$ 9.
- Regiões Norte e Nordeste concentram boa parte dos piores índices, revelando um apartheid de saneamento que se mantém por décadas.
Diante desse cenário, a crítica é dura:
- Pequenos anúncios eleitorais em áreas carentes vendem “promessa” de saneamento, mas raramente trazem planos de investimento, modelos de financiamento ou cronogramas realistas.
- Em muitos casos, o saneamento é usado como moeda política: obras iniciadas em eleição, mas paralisadas depois, servem apenas para enfeitar placas de inauguração.
Enquanto isso, o país perde a chance de usar o saneamento como pilar de desenvolvimento econômico e social, capaz de elevar escolaridade, renda e turismo.
O papel do “marco legal” e as falhas políticas
O Marco Legal do Saneamento foi apresentado como um divisor de águas: trouxe contratos de longo prazo, obrigatoriedade de licitação, metas de universalização e incentivo a concessões e parcerias público‑privadas (PPPs). Desde 2020, o setor já atraiu mais de R$ 370 bilhões em projetos futuros, com recordes de investimentos em 2022, 2023 e 2024.
Mas o que o texto das leis não mostra é o pecado político:
- Mesmo com modelo mais moderno, o aporte de recursos ainda é insuficiente para fechar a meta até 2033. Estimativas projetam que, no ritmo atual, a universalização pode escorregar para 2070.
- Enquanto o governo federal e alguns estados tentam articular leilões e parcerias, muitos municípios seguem sem planos de regionalização ou sem sequer investir em projetos de engenharia e licenciamento.
- O senador Alan Rick (Republicanos‑AC) reconhece: o problema não é falta de dinheiro, mas falta de vontade política. “Falta ação, falta prioridade”, resume.
Em vez de usar o Marco Legal como ferramenta de transformação, parte da classe política se limita a explorar a retórica de privatizações ou a acusar o governo central de “favorecer estatais”, sem oferecer alternativa clara ao eleitor.
2026: o eleitor precisa cobrar, e não apenas esperar
Em ano eleitoral, o fato de saneamento básico continuar fora do centro dos debates é um sinal de alerta para a representatividade. Especialistas como Luana Siewert Pretto, do Instituto Trata Brasil, insistem: saneamento precisa ser pauta central, não detalhe de programa de governo.
Entre as críticas explícitas aos políticos estão:
- A subordinação do tema a outros, como infraestrutura ou “melhoria da qualidade de vida”, sem metas concretas.
- A falta de compromisso com a transparência sobre como os recursos serão captados, licitados e executados, preferindo anúncios vazios em vez de estudos de viabilidade.
- A naturalização do problema em áreas mais pobres, onde o eleitorado é frequentemente usado para fazer corpo mole em campanha, mas esquecido depois.
Para entidades como a Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (Abcon), é preciso que o parlamento acompanhe e aprimore projetos em tramitação, garantindo que o setor não seja “desmontado” por mudanças políticas de última hora.
O que o eleitor deve exigir em 2026
Diante desse cenário, a tarefa não é apenas de quem manda, mas também de quem elege. O eleitor pode — e deve — usar o saneamento como ferramenta de avaliação dos candidatos:
- Cobrar planos de investimento em saneamento, com metas claras de prazo, fonte de recursos e indicadores de desempenho.
- Exigir fortalecimento de agências reguladoras, para que a expansão de serviços seja fiscalizada de forma técnica, e não politizada.
- Questionar conflitos de interesses e “promessas milagrosas”: obras que dependem de parcerias público‑privadas não são doações, e podem gerar aumento de tarifas se mal planejadas.
Enquanto não se traduzir em maior pressão social, o saneamento básico continuará sendo o grande “filho esquecido” das eleições brasileiras — e o prejuízo continuará nas casas, nos rios e nos hospitais do país.
Fonte: Agência Senado | Instituto Trata Brasil.










