A morte do cão Orelha, na Praia Brava, em Florianópolis (SC), chocou o país e reacendeu o debate sobre maus‑tratos a animais, impunidade e a responsabilização de adolescentes envolvidos em crimes de extrema brutalidade. Orelha, um cachorro comunitário de cerca de 10 anos, foi espancado na cabeça por um grupo de quatro adolescentes no dia 4 de janeiro de 2026, na praia considerada uma das mais nobres da capital catarinense. Ferido gravemente, o animal foi encontrado agonizando por frequentadores do local, levado a uma clínica veterinária e, no dia seguinte, submetido à eutanásia por causa da gravidade dos ferimentos.
Laudos periciais confirmam que Orelha sofreu uma lesão contundente na cabeça, compatível com golpes de objeto sem ponta ou lâmina, como pedaço de madeira, garrafa ou outro instrumento contundente. O objeto utilizado na agressão, no entanto, não foi localizado pela Polícia Civil, o que complica a elucidação completa dos detalhes do ataque. A investigação aponta que os quatro adolescentes envolvidos atacaram o animal de forma cruel, sem qualquer motivação aparente além do que parece ser um ato de violência gratuita.
Veja também:Alerta: Falsificações de Tirzepatida (Mounjaro) no Brasil
Além da morte de Orelha, a polícia apura também uma tentativa de afogamento de outro cão comunitário, chamado Caramelo, na mesma praia. Imagens e relatos de testemunhas indicam que o grupo pegou o animal no colo e o jogou no mar, em uma sequência de ações que reforça o padrão de crueldade e desrespeito à vida. O caso ganhou repercussão nacional e virou símbolo da necessidade de endurecimento das penas por maus‑tratos a animais, bem como de maior fiscalização em áreas públicas frequentadas por jovens.
Dois dos adolescentes suspeitos deixaram o Brasil para uma viagem aos Estados Unidos logo após o episódio, o que gerou forte comoção e acusações de tentativa de fuga da responsabilidade. Com apoio da Polícia Federal, a Polícia Civil identificou a antecipação do voo de retorno e cumpriu mandados de busca e apreensão, recolhendo celulares e outros dispositivos eletrônicos para análise de dados. O inquérito corre na Delegacia de Atendimento ao Adolescente em Conflito com a Lei da Capital (DEACLE), sob sigilo absoluto previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
A investigação também apontou a coação de testemunha por três adultos – dois pais e um tio dos adolescentes – que teriam pressionado um vigilante de condomínio que possuía fotos que poderiam auxiliar no esclarecimento do crime. Esse desdobramento mostra que o caso não se limita à violência direta contra o animal, mas envolve tentativas de obstrução da Justiça e uso de influência familiar para proteger os agressores.
Orelha era um cachorro conhecido e querido na comunidade local, símbolo de convivência pacífica entre moradores e animais de rua. Sua morte brutal expõe uma crise de valores entre parte da juventude privilegiada, que parece encarar a vida alheia – inclusive de animais – como algo descartável. O caso também evidencia limites do sistema de responsabilização de adolescentes, já que o ECA impede a divulgação de identidades e muitas vezes é visto como escudo de impunidade, mesmo em crimes de extrema gravidade.
Para especialistas em direitos animais, a morte de Orelha deve servir como gatilho para revisão de leis e políticas públicas, incluindo maior rigor em penas por maus‑tratos, programas de educação em escolas e fiscalização mais intensa em praias e espaços públicos. Enquanto isso, o país segue em luto por um cachorro que, em vida, representava a simplicidade e a lealdade que muitos humanos parecem ter perdido.



